| O Globo Zona Sul do dia 22 de
fevereiro de 2007
Além da esmola...
Perfil de população de rua
muda ao longo de 15 anos. Polícia Militar
confirma que já há assaltantes
infiltrados no meio dos sem-teto
Por Rodrigo March e Waleska Borges
Um dos problemas que mais incomoda os turistas
e moradores da região, e fica
a cada dia mais complexo de ser resolvido, diante
da forma como o poder
público o trata. O GLOBO-Zona Sul foi
conhecer de perto a realidade dos
moradores de rua, para entender por que a situação
só piorou nos últimos
anos - em 2006 foram 65.945 abordagens da prefeitura
apenas na Zona Sul -, e
descobriu que o perfil dessa população
mudou muito em 15 anos. A mera
mendicância deu lugar a pessoas expulsas
pelo tráfico e até a assaltantes.
Ao mesmo tempo, os abrigos municipais não
atraem os menores, que costumam
fugir no mesmo dia. A estratégia da Secretaria
municipal de Assistência
Social, de querer abrigar a pessoa logo na primeira
abordagem, também
mostra-se equivocada e sem articulação
com outros municípios, segundo Jorge
Muñoz, especialista que estuda o problema
no país há 23 anos.
Misturados à população
de rua, traficantes e assaltantes têm
se aproveitado
disso para cometer pequenos crimes na região.
Investigações às quais
O
GLOBO-Zona Sul teve acesso revelam que as praças
do Lido, em Copacabana, e
Sibelius, na Gávea, são os principais
pontos em que os criminosos estão
infiltrados. Segundo um agente de segurança,
na Praça do Lido, traficantes
vestidos como mendigos costumam vender drogas
para prostitutas e travestis.
No mesmo lugar, os falsos mendigos dividem
as mercadorias roubadas e
furtadas dos pedestres. Eles seriam do Morro
Pavão-Pavãozinho e da Ladeira
dos Tabajaras. Já na Praça Sibelius,
os criminosos se misturam aos mendigos
para roubar. Eles seriam assaltantes da Cruzada
São Sebastião. As principais
vítimas são turistas e idosos.
Na fuga, os assaltantes costumam correr em
direção à praia. Alguns
deles se
jogam no mar, para fugir da polícia.
Em Copacabana, o disfarce de um falso mendigo
foi descoberto há 15 dias.
Aluísio Rodrigues Ribeiro, de 45 anos,
fingia ser um morador de rua para
vender drogas. Ele foi preso por policiais militares
do Serviço Reservado do
19º BPM (Copacabana).
De acordo com a polícia, Aluísio
atuava no ponto há cerca de três
anos. Ele
foi flagrado com 15 papelotes de cocaína
na Rua Barata Ribeiro quando
passava a droga para um viciado. Os policiais
chegaram até o falso mendigo
por meio de informações do Disque-Denúncia
(2253-1177).
- Ele se passava por mendigo e louco. Depois
de 12 anos preso por tráfico de
drogas, estava em liberdade condicional - conta
um policial.
O comandante do 23º BPM (Leblon), Carlos
Eduardo Millan, confirma as
infiltrações, mas ressalta que
é complicado efetuar as prisões.
- Precisamos de um flagrante ou ordem judicial.
A ajuda da população é
fundamental para iniciarmos as investigações.
Crianças são
usadas como moeda de troca
Explorados pelos pais em sinais de trânsito,
praças e calçadas, crianças
e
adolescentes são usados até como
moeda de troca entre moradores de rua. De
acordo com a promotora Daniela Moreira da Rocha
Vasconcellos, da 3ª
Promotoria da Infância e Juventude, responsável
pelos bairros da Zona Sul,
existe uma mendicância profissional na
região.
- Há um ano, atendemos o caso de uma
moradora de rua que alugava os dois
filhos, de 1 e 3 anos, para outra mendiga pedir
esmola, na Praça Nossa
Senhora da Paz - conta a promotora, lembrando
que a mãe perdeu o direito de
criar os dois filhos, adotados por um tio.
A promotora diz que já ouviu relatos
de crianças que recebiam até R$1
mil
por mês com a venda de balas em bares
da região. Daniela acredita que o
gesto de dar esmolas incentiva a exploração
de menores.
- Em vez de dar dinheiro, a população
deve denunciar os lugares nos quais as
crianças são exploradas pelos
adultos. O contato pode ser feito pelo número
127, da Ouvidoria do Ministério Público
- orienta.
O padre Manuel de Oliveira Manangão,
do Vicariato da Caridade Social,
sugere, primeiramente, um atendimento mais emergencial,
com a distribuição
de café da manhã e quentinhas.
- Quem tem fome não pode esperar - diz
o padre.
Segundo ele, há 50 paróquias
espalhadas pelo Rio, principalmente na Zona
Sul, trabalhando com moradores de rua. Paralelamente
à distribuição de
alimentos, ele diz que a Igreja tenta convencer
os moradores a se
organizarem em cooperativas.
A diretora executiva da ONG Associação
Brasileira Terra dos Homens, Cláudia
Cabral, acredita que também é
necessário investir mais em segurança:
- O domínio do tráfico em comunidades
tem levado muitos jovens para as ruas
- alerta Cláudia, que critica o que chama
de "visão radical" dos moradores
da Zona Sul. - A maioria da população
trata esses moradores como postes.
A subsecretária de Proteção
Social Especial do município, Marília
Rocha,
acredita que, se a população não
desse esmolas, o problema nas ruas seria
bem menor.
- As pessoas devem buscar formas mais produtivas
de solidariedade,
contribuindo com instituições,
em vez de dar esmolas.
A subsecretária acha que também
falta integração dos diversos
órgãos
responsáveis pelo problema.
- Essa responsabilidade é articulada.
O funcionário da prefeitura, por
exemplo, não tem poder de fazer uma intervenção
contra a vontade de uma mãe
que está explorando uma criança.
Nessas horas, falta união na rapidez
que a
situação merece - aponta ela.
Marília Rocha culpa ainda o estado e
os outros municípios pela situação
em
que se encontra o Rio de Janeiro.
- Nossos equipamentos estão sobrecarregados,
porque os outros municípios não
assumiram a responsabilidade de construir seus
abrigos. Ao mesmo tempo, o
estado encerrou convênios e fechou, em
novembro, sem aviso prévio, sua
central de encaminhamento de crianças
de outras cidades, que podia até não
dar conta da demanda, mas era uma ajuda. Agora,
o novo governo está tendo
que correr atrás.
Marília também ressalta a complexidade
do problema.
- Fazemos abordagens diárias, mas cada
pessoa tem uma história diferente.
Geralmente, quem está nas ruas são
alcoólatras e viciados, e isso faz com
que a adesão aos abrigos seja mais complicada.
E, quando não é o caso de
abrigo, só podemos internar a pessoa
com autorização judicial.
Abrigos não atraem
os menores
Para entender melhor o que se passa nas ruas
da região, O GLOBO-Zona Sul
acompanhou o trabalho de educadores da prefeitura
em Copacabana. A abordagem
revela que os abrigos municipais atraem os menores
de rua apenas num
primeiro momento. Para muitos, porém,
eles são impensáveis, porque têm
mandados de busca e apreensão expedidos
contra eles.
Um dos jovens acolhidos na Avenida Princesa
Isabel já tinha passado três
vezes pela central de recepção
de crianças e adolescentes da Carioca.
Ele
diz que teme voltar para casa:
- Os caras (traficantes) podem querer me pegar.
No Túnel Sá Freire Alvim, que
liga as ruas Barata Ribeiro e Raul Pompéia,
um
dos seis menores acolhidos tinha estado num
abrigo no dia anterior. Três
deles fugiram das centrais para onde foram levados
no mesmo dia.
Segundo a promotora Daniela Moreira da Rocha
Vasconcellos, da 3ª Promotoria
da Infância e Juventude, 70% desses menores
têm casa.
Fundadora da ONG Projeto Uerê, que atende
a 470 crianças e adolescentes
traumatizados pela violência no Complexo
da Maré, Ivone Bezerra revela que,
até chegar à fase adulta, uma
criança terá passado até
15 vezes por um
abrigo.
- Ela acabará sendo um adulto de rua.
Os abrigos precisam ser um lugar
agradável - avalia ela.
Um levantamento feito pelas ONGs Ex-Cola e
Terra dos Homens mostra que, em
2006, havia 662 menores abrigados na Zona Sul,
a maioria em instituições
privadas. Desses, 60 vieram das ruas.
'Estratégia do poder
público é equivocada'
Argentino radicado no Brasil, Jorge Muñoz
estuda o problema da população
de
rua há 23 anos. Mestre em filosofia da
educação pela Fundação
Getúlio
Vargas, Muñoz diz que o poder público
adota uma estratégia equivocada para
lidar com um problema extremamente complexo.
- Tem que ser feito todo um trabalho de rua
antes de chegar com uma Kombi e
convencer a pessoa a ir para um albergue. É
preciso criar um vínculo de
amizade, e melhorar a qualidade de vida dessas
pessoas nas ruas, para que,
aos poucos, elas recuperem sua cidadania e auto-estima.
É um trabalho lento
e progressivo, mas que dá mais resultado.
O estrago na vida dessas pessoas
não se resolve em 24 horas - sustenta
o professor, que representa a ONG Nova
Pesquisa, na Comissão Permanente de Monitoramento
das Políticas Públicas de
Assistência Social.
Muñoz cita como exemplo de melhoria
de qualidade de vida a limpeza regular
do lugar onde moram. E critica práticas
meramente assistencialistas:
- Não sou contra dar roupa e comida.
O problema é quando fica só nisso,
no
albergue, no imediato. E depois, como fica a
pessoa?
Culpar outros municípios e o estado
pela situação do Rio de Janeiro,
como
sempre faz a prefeitura, é uma falácia,
explica o professor.
- É uma ignorância tremenda usar
esse tipo de justificativa. O fator que
leva à migração não
diz respeito à característica
de um município. É um
fator social, de sobrevivência. E ignorar
isso é driblar um desafio enorme.
Todos os governos têm responsabilidade.
Os trabalhos deveriam ser regionais
e articulados - defende.
Muñoz lembra que o problema é
extremamente complexo, porque a população
de
rua mudou muito nos últimos 15 anos,
como constatou O GLOBO-Zona Sul nas
ruas.
- Dentro dessa denominação, há
mendigos, ex-presidiários, doentes mentais,
pessoas expulsas dos morros pelo tráfico,
desempregados, menores etc. É uma
composição muito heterogênea.
Crack mantém menino
de 12 anos na rua
A dependência de álcool e drogas
também leva muitas pessoas a permanecerem
nas ruas. Um dos seis menores acolhidos pela
prefeitura no Túnel Sá Freire
Alvim, de 12 anos, antes de ser levado, foi
atendido por uma ambulância do
Serviço de Atendimento Móvel de
Urgência (Samu).
Segundo os outros menores que foram acolhidos
no túnel, o jovem passou a
noite inteira fumando "pepita", como
eles chamam o crack, subproduto da
cocaína, sete vezes mais potente e mortífero.
Os educadores do município não
conseguiam acordá-lo e tiveram que pedir
o
atendimento médico. Enquanto era medicado,
o jovem gritava pela mãe.
- Mãe, me ajuda!
O pai de J. morreu. Morador do Jacarezinho,
ele teve 13 passagens pela
central de recepção de menores
da Carioca, entre março de 2006 e fevereiro
de 2007. Depois de melhorar, o garoto acabou
entrando na Kombi da
prefeitura, contra sua vontade.
Desta vez, o jovem foi levado para a central
de recepção de menores de
Laranjeiras, de onde fugiu em seguida. No mesmo
dia, ele foi encontrado na
rua por outro educador, que o levou de volta
à central, de onde escapou
novamente.
A promotora Daniela Moreira da Rocha Vasconcellos
conta que há resistência
dos médicos e das próprias famílias
em receber esses jovens.
- Existe um alto índice de uso de álcool
e drogas entre menores.
Infelizmente, ainda há muita resistência
no meio médico em interná-los
para
tratamento - lamenta a promotora.
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